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Prontuário6 min de leitura

FHIR, LOINC e CID-10: por que dois sistemas de saúde não se entendem

Trocar arquivo não é trocar informação. O que são os padrões de interoperabilidade em saúde e por que sem eles o prontuário digital continua fragmentado.

Imagine dois sistemas de prontuário eletrônico trocando o resultado de um exame. O primeiro envia um PDF; o segundo recebe e guarda. Houve troca de arquivo, e nenhuma troca de informação: o sistema que recebeu não sabe que aquilo é uma glicemia de jejum, não sabe o valor, não consegue colocá-lo numa série nem alertar sobre uma alteração.

Interoperabilidade é o que resolve isso, e ela tem duas camadas que costumam ser confundidas: a estrutura (como a informação é embalada) e o vocabulário (o que cada coisa significa).

A estrutura: HL7 FHIR

FHIR (Fast Healthcare Interoperability Resources) é o padrão que define recursos como Patient, Observation, Condition, MedicationRequest e DiagnosticReport, cada um com campos previsíveis. Um Observation FHIR não é um PDF de exame: é um objeto que diz qual analito foi medido, qual o valor, qual a unidade, quando foi coletado e qual o intervalo de referência.

No Brasil, a RNDS — Rede Nacional de Dados em Saúde — adota FHIR R4 como base. É o caminho pelo qual dados de saúde circulam oficialmente entre serviços e o Ministério da Saúde.

O vocabulário: LOINC e CID-10

Estrutura sem vocabulário comum não basta. Se um laboratório chama de "Glicose", outro de "Glicemia" e um terceiro de "Glicose sérica", os três medem a mesma coisa e nenhum sistema consegue afirmar isso com segurança.

  • LOINC identifica exames e observações clínicas por código universal — o mesmo código para o mesmo exame, em qualquer sistema
  • CID-10 codifica diagnósticos, e é o vocabulário de doença mais usado no Brasil
  • Códigos de medicamento ligam a prescrição a um produto registrado, não a um nome escrito à mão

Por que isso importa para quem só quer guardar seus exames

Porque a alternativa é o histórico morrer no sistema onde nasceu. Prontuário tem prazo de guarda de 20 anos; nesse tempo, o serviço que você usa hoje pode fechar, ser vendido ou mudar de formato. Dado estruturado em padrão aberto sobrevive a isso. Dado preso num formato proprietário, não.