Por que tantos médicos detestam o prontuário eletrônico
A resistência costuma ser tratada como conservadorismo. Quase sempre é resposta racional a sistemas que aumentam o tempo de digitação e reduzem o tempo de consulta.
A queixa é constante e costuma ser lida como apego ao papel. Vale levar a sério a hipótese alternativa: a de que muitos sistemas de prontuário realmente pioram o trabalho clínico, e que a resistência é diagnóstico correto.
O que dá errado com frequência
- Campos obrigatórios que servem ao faturamento e não ao cuidado
- Fluxos desenhados para auditoria administrativa, não para a sequência real da consulta
- Excesso de cliques para registrar o que uma frase resolveria
- Alertas em tal volume que o profissional aprende a ignorá-los — inclusive os que importam
- Tela entre médico e paciente, com o profissional digitando enquanto o outro fala
O quarto item tem nome na literatura de segurança do paciente: fadiga de alerta. Um sistema que avisa demais treina quem o usa a descartar avisos, e o alerta relevante morre junto com o ruído.
O custo que ninguém mede
Tempo gasto com o sistema é tempo não gasto com o paciente, e também é tempo depois do expediente — o registro que não coube na consulta é feito à noite. Esse deslocamento aparece pouco nas métricas de implantação e bastante nos índices de exaustão profissional.
O que um sistema bom faz diferente
Reduz digitação em vez de aumentá-la. Traz a informação relevante para a tela em vez de exigir busca. Alerta pouco e com precisão. Aceita texto livre onde texto livre é a forma natural de registrar. E, sobretudo, não confunde completude de formulário com qualidade de registro.